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Presidência da
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DECRETO DE 20 DE OUTUBRO
DE 2003.
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Institui
Grupo de Trabalho Interministerial encarregado de analisar a situação atual e
apresentar plano de ação visando a reestruturação, desenvolvimento e
democratização das Instituições Federais de Ensino Superior - IFES. |
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da
atribuição que lhe confere o art. 84, inciso VI, alínea "a", da
Constituição,
DECRETA:
Art. 1o Fica instituído Grupo de Trabalho
Interministerial encarregado de, no prazo de sessenta dias a contar da
publicação deste Decreto, analisar a situação atual e apresentar plano de ação
visando a reestruturação, desenvolvimento e democratização das Instituições
Federais de Ensino Superior - IFES.
Parágrafo único. O plano de ação a que se refere o caput
deverá contemplar, entre outros aspectos, medidas visando a adequação da
legislação relativa às IFES, inclusive no que diz respeito às suas respectivas
estruturas regimentais, bem assim sobre a eficácia da gestão, os aspectos
organizacionais, administrativos e operacionais, a melhoria da qualidade dos
serviços e instrumentos de avaliação de desempenho.
Art. 2o O Grupo de Trabalho será composto por
representantes dos seguintes órgãos:
I - Ministério da Educação, que o coordenará;
II - Casa Civil da Presidência da
III -
IV - Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão;
V - Ministério da Ciência e Tecnologia;
VI - Ministério da Fazenda.
§ 1o Os membros, titular e suplente, de cada
órgão serão designados pelo Ministro de Estado da Educação, mediante indicação
dos respectivos titulares;
§ 2o O Coordenador do Grupo de Trabalho
poderá convidar representantes de outros órgãos ou entidades públicas ou
privadas, para participar das reuniões do Grupo.
Art. 3o O apoio administrativo e os meios
necessários para a execução dos trabalhos do Grupo de Trabalho serão fornecidos
pelo Ministério da Educação.
Art. 4o Este Decreto entra em vigor na data
de sua publicação.
Brasília, 20 de outubro de 2003; 182o da Independência e 115o
da
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
José Dirceu de Oliveira e Silva
Este texto não substitui o publicado no D.O.U.
de 21.10.2003
Introdução
O presente documento foi
elaborado pelo Grupo de Trabalho Interministerial criado por Decreto de 20 de
outubro de 2003, composto por membros da Casa Civil e da
Ele é composto de quatro
partes. A primeira apresenta o elenco de ações emergenciais para o
enfrentamento imediato da crítica situação das universidades federais. A
segunda ressalta a necessidade da efetiva implantação de autonomia à
universidade federal. A terceira parte aponta para linhas de ação imediata, que
possam complementar recursos e ao mesmo tempo propiciar um redesenho do quadro
atual. A quarta indica as etapas necessárias para a formulação e implanta da
reforma universitária brasileira.
1.
Ações Emergenciais
1.1 A
atual situação de crise da educação superior
A última década foi de
desarticulação do setor público brasileiro; as universidades federais não foram
poupadas. Como em todo o setor público, o quadro geral das universidades
brasileiras é de crise.
De um lado, as universidades
governamentais sofreram conseqüências da crise fiscal do Estado que incidem
sobre seus recursos humanos, de manutenção e de investimento. De outro lado, a
prioridade ao setor privado em todas as áreas também chegou ao setor do ensino
superior: as universidades privadas, que viveram uma expansão recorde nos
últimos anos, chegando a responder, em 2002, por 63,5% do total de cursos de
graduação e 70% das matrículas, encontram-se agora ameaçadas pelo risco de uma
inadimplência generalizada do alunado e de uma crescente desconfiança em
relação a seus diplomas.
Essas duas faces de urna
mesma realidade demandam soluções estruturais, possíveis somente se houver: (i)
um programa emergencial de apoio ao ensino superior, especialmente às
universidades federais e (ii) uma reforma universitária mais profunda.
Durante o período
inflacionário, ainda foi possível adiar os impactos mais destrutivos da crise,
com a utilização generalizada de aplicações de recursos orçamentários na
“ciranda financeiro”. Com a retomada do controle inflacionário, os problemas de
manutenção e de reposição de pessoal não puderam mais ser ignorados.
A situação das universidades
federais começou a apresentar nítida estagnação. Dois elementos conseguiram
adiar esse quadro de crise: (i) a Gratificação de Estímulo à Docência (GED),
implantada em 1998, que impunha aos professores uma carga horária mínima em
sala de aula, como condição para o recebimento de um adicional importante em
sua remuneração; e (ii) a chamada Emenda ANDIFES, que estabeleceu uma
compensação orçamentária para as universidades federais pelo fato de não lhes
ter sido repassado, em 1998, o último duodécimo do ano, acréscimo orçamentário
que acabou por se tornar uma prática recorrente.
A GED e a Emenda ANDIFES tornaram-se instrumentos
da política governamental para o aumento da oferta de vagas nos cursos de
graduação. Para isso, o governo instrumentalizou a Emenda ANDIFES, modificando
a forma de distribuição dos recursos alocados para a manutenção das
universidades federais: aquelas que apresentassem maior expansão da oferta de
vagas na graduação obteriam, segundo a nova matriz de distribuição, mais
recursos de manutenção. No entanto, como tais recursos têm sendo liberados no
final do ano, nem sempre há tempo hábil para viabilizar os gastos necessários,
o que origina um processo de acumulação de dívidas com fornecedores de energia
elétrica, telefone, água, serviços terceirizados como limpeza e vigilância.
O quadro e o gráfico a seguir
mostram a evolução nos números de alunos e docentes das universidades federais.
Nota-se que, apesar do incremento do número de alunos, o total de professores
reduziu-se substancialmente.
Quadro
1 – Evolução dos Quadros Docente e Discente das Universidades Federais
|
Corpo Discente |
1990 |
1994 |
1995 |
1996 |
1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
2001 |
2002 |
|
Alunado |
356.176 |
400.113 |
414.735 |
426.677 |
441.580 |
463.668 |
506.336 |
493.632 |
532.304 |
563.687 |
|
Oferta de Vagas |
68.336 |
92.913 |
91.680 |
97.065 |
102.255 |
105.116 |
131.124 |
134.866 |
112.643 |
115.877 |
|
Docentes Efetivos |
48.416 |
45.243 |
43.115 |
42.411 |
43.150 |
42.766 |
42.985 |
42.619 |
41.716 |
42.363 |
|
Docentes Temporários |
2.010 |
5.183 |
7.311 |
8.015 |
7.276 |
7.660 |
7.441 |
7.807 |
8.710 |
8.063 |
|
Relação...[1] |
7.06 |
7.93 |
8.22 |
8.46 |
8.76 |
9.2 |
10.04 |
9.79 |
10.56 |
11.18 |
Dados:
Censo INEP 2002
Gráfico 1 – Comparação da Evolução dos
Quadros Docente e Discente das Universidades Federais

Apesar do aumento do número
de alunos nas universidades federais, e também nas instituições públicas
municipais e estaduais, o positivo e alvissareiro crescimento da população com
acesso a um curso universitário provocou uma mudança no perfil da distribuição
dos alunos nos setores público e privado.
Quadro 2 – Distribuição dos alunos do Ensino Superior
Brasil, 2003
|
CATEGORIA |
MATRÍCULAS |
|
Publica Federal Estadual Municipal |
1.951.655 531.634 415.569 104.452 |
|
Privada Particular Comunitária/ Confessional/ Filantrópica |
2.428.258 1.261.901 1.166.357 |
|
TOTAL |
3.479.913 |
Considerando-se o ritmo atual
de expansão do sistema, chegaríamos a 2007 com um total de matrículas de
aproximadamente 6 milhões em todo o setor. Mesmo considerando a proposta da
ANDIFES de duplicar o número de matrículas nas universidades federais,
chegaríamos a 2007 com cerca de apenas 26% dos alunos matriculados no ensino
público, aumentando ainda mais a distorção que vem se acentuando nos últimos
anos. Para atingir os 40% de universitários matriculados no setor público
determinados pelo Plano Nacional de Educação, seria preciso chegar a 2,4
milhões de vagas no sistema público, dos quais a metade no subsistema federal.
A ampliação do número de
vagas e o enfrentamento da crise das universidades federais requer
encaminhamentos tanto emergenciais como
estruturais e duradouros. Algumas ações emergenciais seriam:
a. Formular e implementar as diretrizes
de um plano emergencial para equacionar e superar o endividamento progressivo junto
aos fornecedores, combinado com a elevação dos recursos para os custos
operacionais.
b. Abrir concursos para preencher as
vagas de professores e servidores, originadas por demissões, aposentadorias e
exonerações, não preenchidas ao longo dos últimos dez anos, e para substituir
os professores contratados em caráter temporário por professores efetivos.
Assegurar ainda recursos para cobrir os déficits em manutenção e investimento.
c. Outorgar autonomia para garantir às
universidades federais o uso mais racional de recursos, maior eficiência no seu
gerenciamento e liberdade para capitar e aplicar recursos extra-orçamentários,
além da autonomia didático-pedagógica.
d. Garantir novas vagas: (i) concedendo
bolsas de aproveitamento e regionalização para a contratação de doutores que
desejem se dedicar ao magistério, especialmente nas licenciaturas em física,
matemática, biologia, química, nos locais carentes de pessoal com formação
superior, (ii) adotando critérios de regionalização e interiorização na política
de abertura de vagas para concurso, juntamente com um auxílio para implantação
de novas linhas de pesquisa para esses novos contratados, e (iii) reintegrando
aposentados às atividades das universidades federais, mediante a implementação
de um programa especial de bolsas de excelência.
1 .2
Reposição do Quadro de Professores
O quadro 3 indica as metas
previstas para a ampliação no quadro de vagas nas universidades federais até
2007, de maneira a cumprir com a meta de garantir 40% de participação do setor
público no total previsto de alunos do ensino superior:
QUADRO 3- COMPROMISSO
DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS PARA
AMPLIAÇÃO DE VAGAS PARA
O CORPO DISCENTE ATÉ 2007
|
|
2003 |
2007 |
|
Alunos
Matriculados Oferta
deVagas no Ano |
600.000 120.000 |
1.200.000 240.000 |
Por meio de aumento na
dedicação à sala de aula, de um maior número de alunos por turma e sobretudo
graças ao esperado uso de técnicas de ensino a distância, será possível atingir
um aumento significativo na relação alunos/docente para os próximos anos,
conforme cenário descrito no quadro 4:
QUADRO 4 - PREVISÃO DA
RELAÇÃO ALUNO/DOCENTE
|
2003 |
2004 |
2005 |
2006 |
2007 |
|
11,9 |
12,5 |
14,5 |
16 |
18 |
Apesar do enorme aumento no
número de seus alunos, que passou, entre 1994 e 2003, de 400 mil para 600 mil
matrículas, as universidades federais dispõem, desde 1994, do mesmo total de
postos docentes — 50.426 professores. Porém, esses postos não estão totalmente
preenchidos desde 1990. Para superar tal lacuna, tem sido utilizado o precário
instrumento do professor substituto, na maioria dos casos sem formação adequada
e contratados em caráter provisório, sem vínculo nem estabilidade. As
universidades federais contam atualmente com 8.886 professores substitutos, os
quais, juntamente com 41.215 professores do quadro, somam 50.101 professores em
exercício. Com base na previsão da relação aluno/professor, o número ideal de
professores para atender aos 1.200.000 alunos previstos para 2007 seria de
67.000. Portanto, para corrigir ao mesmo tempo a falta de professores e a substituição
dos temporários por professores permanentes, seria preciso contratar 25.785
professores: 8.886 para substituir os atuais contratados como temporários,
9.211 para completar o quadro de 50.426 vagas, e 7.688 novos professores,
necessários para atender ao aumento de 600 mil para 1,2 milhão de estudantes.
Segundo dados do MEC, a troca
dos 8.886 substitutos por professores mestres, Assistente I, com Dedicação
Exclusiva e Auxiliares com 40 horas, implicaria em um custo anual de R$ 193
milhões. Se os demais 16.899 professores fossem contratados pela média dos
salários dos professores Adjuntos e Assistentes com dedicação exclusiva, o
custo anual adicional para tal contratação seria de cerca de R$ 640 milhões. O
custo total estaria, portanto, ao redor de R$ 833 milhões por ano, mas a
substituição ofereceria uma redução de cerca de R$ 100 milhões, o que significa
um custo líquido de R$ 733 milhões.
Esse custo, no entanto, só
seria alcançado após um crescimento paulatino. Considerando o cronograma de
elevação progressiva no número de vagas, para 2004 o custo seria de R$ 183
milhões, que aos poucos cresceria até o limite estimado para 2007.
1 .3
Incorporação do Potencial de Aposentados e Doutores
a) Bolsa de Excelência
Docente - a deformação do sistema previdenciário brasileiro é uma das causas da
crise das universidades federais. Ao serem autorizadas, ou mesmo incentivadas,
as aposentadorias precoces de professores no auge do seu potencial, esvaziam-se
as universidades públicas em benefício das particulares, para onde os
professores se transferem em troca de um salário complementar. De fato, com
essas aposentadorias, o sistema público vem financiando o sistema particular. A
reforma previdenciária servirá para proteger a universidade desse esvaziamento,
porém induziu, em um primeiro momento, um processo adicional de aposentadorias.
A perda sofrida pelas universidades nos últimos anos, em função dessas
aposentadorias precoces, tem sido devastadora. Para evitar a perda de tamanho
potencial, a solução seria a criação de um programa de bolsas de excelência
docente, que permitisse manter esses professores em atividade acadêmica nas
universidades federais.
b) Bolsa de aproveitamento e
regionalização de doutores — além da irracionalidade da aposentadoria precoce
de professores no auge de sua carreira, o sistema universitário brasileiro
sofre de irracionalidade na outra ponta, ao deixar desempregados centenas de
jovens doutores. Depois de desfrutarem altos investimentos em sua formação, os
doutores ficam desempregados ou são desviados das funções para as quais se
prepararam. Depois de poucos anos, o conhecimento adquirido é esquecido e
superado, e o gosto pela atividade acadêmica perdido. O país desperdiça os
investimentos realizados e aborta carreiras brilhantes. Para evitar isso,
bastaria um programa de bolsas que mantivesse o jovem doutor em atividade. Ao
mesmo tempo, tais bolsas poderiam servir para corrigir a tragédia da
desigualdade regional no desenvolvimento do ensino superior, se orientadas de
modo a atender carências de professores identificadas em algumas regiões ou
carências em determinadas áreas de conhecimento.
Para manter essas bolsas,
cálculos do MEC apontam que seriam necessários anualmente recursos da ordem de
R$ 25,2 milhões para financiar a bolsa de aproveitamento a 700 doutores, e de
R$ 36 milhões para incorporar 1.000 professores aposentados por ano.
1.4
Recomposição do Quadro de Funcionários Técnicos-Administrativos
Apesar da autorização de contratação de servidores durante
2003, o quadro de servidores ainda precisa de recomposição, sobretudo de
reorganização. Mas o caso dos servidores técnicos-administrativos deve ser
tratado com mais tempo, ao longo da reforma mais ampla da universidade.
1.5
Recursos para Manutenção
O quadro 5 mostra a evolução dos gastos das universidades
federais com manutenção:
QUADRO 5 - RECURSOS PARA
MANUTENÇÃO DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS
|
|
1996 |
1997 |
1998 |
1999 |
2000 |
2001 |
2002 |
2003 |
|
Execução
Orçamentária (em R$ 1.000) |
360.000 |
360.000 |
330.000 |
424.523 |
422.389 |
412.668 |
480.668 |
551.645 |
|
Variação % Anual |
|
0 |
-8,33 |
28,64 |
-0,5 |
-2,3 |
16,48 |
14,77 |
A partir de 1999, no lugar de
previsões orçamentárias, os gastos de manutenção das universidades federais têm
sido financiados com recursos provenientes de Emendas de Parlamentares da
Comissão de Educação do Congresso Nacional. A liberação dos recursos não é
feita regularmente, depende de convênios, e tem sido sistematicamente realizada
nos finais de cada ano, o que traz problemas na execução para todas as
universidades federais.
Para enfrentar a emergência e
evitar as crises desgastantes, periódicas e previsíveis, é fundamental o
compromisso do Governo Federal de liberar os recursos no prazo regular,
garantindo um bom cronograma de funcionamento da universidade. Além da
incorporação orçamentária do valor da Emenda, será necessário também aumentar
seu valor.
Além da liberação dos R$ 87
milhões referentes à Emenda ANDIFES, o fechamento do ano de 2003 sem novas
dívidas exigiria, segundo o MEC, uma suplementação de R$ 68 milhões, perfazendo
um total de recursos de OCC de R$ 619,6 milhões, quando somados aos atuais R$
551,6 milhões.
Para 2004, foi solicitado um
montante para manutenção das universidades federais de R$ 759 milhões. Esse
valor levou em conta:
• o executado em 2002, incluindo
o constante na LOA acrescido da Emenda ANDIFES;
• o que faltou pagar de
despesas básicas do ano; e
• uma correção de 12% nas
dotações de 2003 e 2004 para fazer frente à desvalorização da moeda no período.
O quadro projetado para os
próximos anos prevê uma variação de 22,7% entre 2003 e 2004, em função dos
compromissos passados não honrados por quase todas as instituições, e uma
correção anual de 10% a partir de 2005.
QUADRO 6- CUSTO DE
MANUTENÇÃO DAS UNIVERSIDADES
FEDERAIS (em R$
1.000,00)
|
2004 |
2005 |
2006 |
2007 |
|
759.000 |
834.900 |
918.390 |
1.010.229 |
O montante de recursos
previsto no Projeto de Lei encaminhado ao Congresso Nacional para o ano de 2004
é de R$ 557 milhões, faltando assim, segundo o MEC, R$ 202 milhões para atender
às necessidades das universidades.
1 .6
Investimentos
Há muito as universidades
federais deixaram de contar com um programa específico para recuperação predial
e aquisição de equipamentos para seus laboratórios e bibliografia para o ensino
de graduação. Essa situação tem provocado o fechamento de laboratórios,
desabamento de prédios e degradação de instalações que, em alguns casos, deixam
as universidades federais em clara aparência de penúria.
O MEC estimou-se para 2004 o
montante de R$ 241 milhões para possibilitar a recuperação pretendida de
equipamentos, além de um aporte anual de R$ 100 milhões para manutenção
predial.
Esses recursos não foram
contemplados na proposta orçamentária, o que pode trazer graves problemas ao
funcionamento das universidades. Há casos de instituições nas quais se pode
prever um verdadeiro colapso de funcionamento.
QUADRO 7 - INVESTIMENTOS
PROJETADOS
PARA RECUPERAR AS
UNIVERSiDADES FEDERAIS
(em R$ 1.000,00)
|
|
2004 |
|
Equipamento |
241.000 |
|
Construção |
100.000 |
1.7 A
pós-graduação
O sistema nacional de pós-graduação
coordenado pela CAPES tem demonstrado ser uma das experiências brasileiras de
maior sucesso. Entre 1996 e 2001, o número de cursos de mestrado e doutorado
cresceu 85,8%, a mesma proporção de crescimento no número de alunos
matriculados no período, ao passo que o número de titulados cresceu 76%. Também
expressivos são os resultados em relação à expansão quantitativa e qualitativa
da produção científica do País. Na última década, o Brasil mais do que duplicou
sua participação na produção científica mundial. No período 1994 - 2001, a
produção brasileira cresceu 117%; enquanto a mundial cresceu 15%. Em 1981, o
Brasil ocupava a 26ª posição; em 2001 passamos a ocupar a 18ª posição mundial.
O Sistema Nacional de
Pós-Graduação - SNPG conta com 2.693 cursos de mestrado e doutorado, e com
105.953 alunos matriculados. A produção discente anual está em 24.493
dissertações de mestrado e 6.894 teses de doutorado (dados de 2002).
Atualmente, a pós-graduação stricto sensu tem 31 mil titulados por ano. Apenas
30% dos matriculados recebem bolsas de estudo das agências federais - CAPES e
CNPq, cujos valores foram congelados em 1994. No final de 2003 foi concedido o
primeiro aumento, em quase dez anos, para os bolsistas na Europa, e uma
complementação para todos os demais.
Ao longo dos últimos oito
anos, a Capes teve seu orçamento praticamente inalterado, enquanto o número de
alunos do Sistema Nacional de Pós-Graduação cresceu a uma taxa anual de 11,2%,
no que se refere ao número de matrículas, e de 8,6% no que se refere ao total
de cursos.
Essas restrições
orçamentárias forçaram o congelamento, desde 1994, dos valores das bolsas de
estudo no País, mestrado e doutorado - respectivamente R$ 724,52 e R$ 1.072,89,
apesar de uma inflação de 102,4% no período. Tal situação tem causado prejuízos
no desempenho dos bolsistas, de quem é exigida dedicação integral aos estudos e
à pesquisa. Na verdade, essa situação tem-se agravado, estando a Capes
submetida à forte pressão das entidades docentes e discentes de pós-graduação,
que buscam, com a correção dos valores das bolsas, evitar que os alunos sejam
forçados a exercer atividades não relacionadas com seus estudos, para
complementação de renda. Teme-se, portanto, pela queda na qualidade da formação
de mestres e doutores e na produtividade do SNPG como um todo.
A insuficiência de recursos
orçamentários tem impedido a Capes de promover ajuste nos valores de bolsas e
de expandir sua oferta. No início da década de noventa, atendia-se cerca de 40%
do universo de alunos matriculados; hoje, são apenas 20% desse total, o que
torna menos atrativo esse nível de ensino e gera enormes prejuízos para o
desenvolvimento do País. Essa situação é mais grave nas regiões Norte, Nordeste
e Centro-Oeste, exceto Distrito Federal, que necessitam consolidar seus
sistemas estaduais de apoio à Ciência e Tecnologia. Em adição, é patente a
falta de mestres e doutores para áreas estratégicas, como por exemplo a
formação de professores de ensino fundamental e médio nas áreas de português,
matemática e ciências.
Apesar de possuir e mobilizar
um conjunto significativo de instituições executoras de pesquisa e
desenvolvimento, há necessidade de se garantir bases estáveis de planejamento
tecnológico, promovendo ajustes na base técnico-científica existente, principalmente
no segmento acadêmico. Só assim pode-se manter um processo contínuo de formação
de mestres e doutores que possam atender áreas de relevância econômica, social
e estratégica, ainda insuficientes em vista dos novos desafios dos setores de
produção industrial, agricultura, agronegócios e serviços.
Para retomar a dinâmica do
sistema de pós-graduação, de acordo com o MEC, seria necessário tanto um
aumento de 20% no número de bolsistas, quanto uma elevação de 20% no valor das
bolsas, congeladas há oito anos. Essas duas elevações exigirão recursos
adicionais de R$ 195 milhões, além dos R$ 295,8 milhões gastos atualmente.
1 .8
O custo da emergência
A continuação do atual quadro
de emergência provocará, inevitavelmente, a tragédia do esvaziamento,
degradação e desarticulação do excelente sistema montado nas universidades
federais brasileiras. No futuro, essa tragédia de desenvolvimento do País se
transformará em crime, na visão dos historiadores. Não será difícil localizar
nos anos anteriores a causa inicial desse processo, mas será sobre os ombros do
atual e próximos governos que mais pesará a responsabilidade da correção do
rumo e recuperação das universidades federais.
QUADRO 8 - CUSTO
FINANCEIRO PARA ENFRENTAR A EMERGÊNCIA DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS E DOBRAR O
NÚMERO DE ALUNOS
(EM R$ 1.000,00)
|
|
2004 |
2007 |
|
Completar
quadro de professores |
183.000 |
733.000 |
|
Incorporar
potencial de aposentados e doutores |
61.000 |
61
.000 |
|
Manutenção |
202.000 |
808.000 |
|
Investimento* |
341.000 |
- -
- |
|
Pós-graduação |
195.000 |
195.000 |
(*)Consideram-se apenas os recursos necessários para a
emergência, sem levar em conta os investimentos adicionais para dar uma nova
dinâmica à universidade.
Parar evitar esse custo
trágico, o MEC estima que o setor público brasileiro precisaria arcar, nos próximos
anos, com um custo financeiro em torno dos R$ 982 milhões por ano, a partir de
2004, chegando a R$ 1.797 milhões em 2007.
Com esse custo, teremos recuperado o sistema, dado-lhe outra dinâmica,
dobrado o número de alunos, elevado sua produção.
2.
A Autonomia das Universidades Federais
Se, por um lado, a gravidade
da crise emergencial das universidades está na falta de recursos financeiros do
setor público, não se pode negar que, por outro lado, a crise decorre também
das amarras legais que impedem cada universidade de captar e administrar
recursos, definir prioridades e estruturas de gastos e planejamento. Por isso,
a imediata garantia de autonomia às universidades é um passo necessário para
enfrentar a emergência.
A autonomia deve conferir à
universidade, de forma participativa e transparente, competência para dispor
sobre sua organização administrativa, suas questões financeiras e suas
políticas em matéria educacional, sem interferência de outros órgãos do
Governo, nos limites constitucionais. A relação com o Governo e o Estado se
daria no momento de sua avaliação, quanto aos aspectos da boa gerência, feita
pelo TCU, e pelo Sistema Nacional de Avaliação e Progresso do Ensino Superior
do MEC.
2.1
Autonomia didático-científica
A autonomia didático-científica
confere à universidade, sob a égide do pluralismo de idéias, o direito à
liberdade do ensino e de comunicação do pensamento. No âmbito da autonomia
didática estariam: o direito de organizar ensino, pesquisa e extensão, de criar
e extinguir cursos, de elaborar e estabelecer currículos para a graduação e
pós-graduação, de estabelecer critérios de acesso de alunos em todos os níveis
e de conferir certificados e diplomas.
A autonomia científica se
refletiria na organização da universidade, assegurando autonomia organizacional
referente ao desenvolvimento das disciplinas científicas. A autonomia
científica possibilitaria à universidade, por exemplo, desenvolver pesquisas
que não possuíssem imediata relevância política ou econômica. Entretanto, pelo
Sistema Nacional de Avaliação e Progresso, o MEC daria o reconhecimento social
às universidades comprometidas em realizar pesquisas voltadas para a solução
dos problemas brasileiros e para o desenvolvimento do sistema produtivo
nacional e regional. A relação entre universidades e Estado se dará pelo
Sistema Nacional de Avaliação e Progresso do Ensino Superior, que classificará
as instituições e cursos conforme a qualidade que elas apresentam em suas
funções acadêmicas e conforme o cumprimento de seus compromissos com a
sociedade e o País.
2.2
Autonomia administrativa
A autonomia administrativa
asseguraria à universidade capacidade decisória para, de um lado, administrar
os seus serviços, agindo e resolvendo interna
corporis os assuntos de sua própria competência e, de outro, disciplinar
suas relações com os corpos docente, discente e administrativo que a integram.
As prerrogativas inerentes à
autonomia administrativa seriam:
a. estabelecer a política
geral da universidade para a consecução de seus objetivos;
b. elaborar, aprovar e
reformar seus estatutos;
c. elaborar, aprovar e
reformar os regimentos de suas unidades e demais órgãos;
d. constituir colegiados
superiores, com a presença obrigatória de membros da comunidade externa
e. escolher seus dirigentes
segundo as normas previstas nos seus estatutos e na sua legislação interna;
f. contratar, nomear,
demitir, exonerar e transferir, servidores docentes e não docentes, obedecidas
as normas legais pertinentes estabelecidas em seus regimentos e respeitados os
direitos dos trabalhadores;
g. decidir seu plano de
carreira;
h. fixar acordos, contratos,
convênios e convenções;
i. elaborar, aprovar e
alterar regulamento próprio para licitação observando as normas gerais e os
princípios básicos estabelecidos em lei.
No âmbito da autonomia
administrativa, a universidade estaria dotada da capacidade de se organizar e
regulamentar suas próprias atividades-fim.
2.3
Autonomia de gestão financeira e patrimonial
A autonomia financeira
outorgaria à universidade o direito de gerir e aplicar seus próprios bens e
recursos, em função de objetivos didáticos, científicos e culturais já
programados. Obviamente, esse aspecto da autonomia universitária não deve
dispensar a universidade dos sistemas de controle interno e externo.
Com respeito à autonomia
financeira e patrimonial, as universidades federais teriam seus recursos
previstos no orçamento de 2004, acrescidos de recursos do Programa Emergencial,
e os recursos provenientes do Pacto de Educação pelo Desenvolvimento Inclusivo,
descrito adiante. Além disso, elas poderiam captar recursos livremente, tanto
no setor público quanto no setor privado, podendo administrar esses recursos de
acordo com suas normas próprias e estatutos. As universidades federais
prestariam contas ao TCU, quanto ao uso austero e honesto dos recursos, e ao
MEC, no que se refere ao produto obtido, conforme a avaliação realizada pelo
Sistema Nacional de Avaliação e Progresso do Ensino Superior.
Ao mesmo tempo, para exercer
uma autonomia não-autista, sem isolar-se do povo que a manteve, as
universidades federais precisariam incorporar representações da sociedade em
seus órgãos colegiados.
2.4
Autonomia participativa e transparente
A autonomia das universidades
federais no uso de seus recursos não pode ser exercida sem a participação
efetiva de sua comunidade nas decisões relativas a fontes e uso de recursos. A
comunidade universitária, nos seus três segmentos, deve conhecer a priori e
participar da decisão que aceite e legitime a fonte e defina o destino de seus
recursos.
2.5
Regulamentação das relações entre as universidades e as fundações de apoio
Como forma de contornar a
falta de autonomia legal, a partir dos anos 80, as universidades passaram a
utilizar fundações de apoio, contratadas pelos órgãos de controle e pela
comunidade. Na realidade de hoje não é possível prescindir das fundações, que
têm um grande papel a cumprir no funcionamento autônomo das universidades
federais, ao mesmo tempo em que se definem regras claras para o funcionamento
delas, pela lisura e transparência. Nesse sentido, o MEC e o MCT elaboraram uma
proposta de regulamentação das relações entre universidades e fundações de
apoio, já em tramitação no Governo, na forma de proposta de Decreto.
3.
Primeiros Passos para o Redesenho do Quadro Atual
Não há dúvida da necessidade
de enfrentar de imediato as emergências das universidades federais, mas um
enorme equívoco seria cometido se esse fosse considerado o único problema da
universidade, que permitiria ao sistema, caso superado, um funcionamento
satisfatório. As universidades federais representam hoje uma pequena parte do
sistema universitário brasileiro, privatizado ao longo dos últimos anos. Esse
sistema, como ocorre no resto do mundo,
enfrenta uma crise em sua própria essência. Isso exige, além do enfrentamento
da emergência, medidas imediatas de reorientação rumo a uma grande reforma, que
lhe forneça uma nova estrutura para enfrentar o século XXI.
A Reforma Universitária
brasileira terá de responder com presteza a grandes desafios. Nossa situação é
ainda mais urgente se considerarmos a especificidade do Brasil como país
periférico marcado pela herança escravocrata, com agudas desigualdades sociais.
Mas a reforma que conduzirá a
universidade brasileira ao seu novo protagonismo histórico no século XXI será
efetivada com zelo democrático. A urgência não pode servir de pretexto para o
autoritarismo arbitrário. Todos os passos da reforma universitária brasileira
serão realizados em diálogo com a comunidade acadêmica e em estreito comprometimento
com o futuro da Nação. Enquanto isso não ocorre, porém, são necessários passos
urgentes, para que, enquanto são oferecidos recursos para sair da crise
emergencial, se enfrentam os seguintes desafios: a drástica mudança dos
horizontes profissionais, com a emergência de novos campos de atividade e o
sucateamento de antigas profissões: as necessidades de pessoal de nível
superior que enfrenta o País, e a velocidade e a multiplicidade de mecanismos
que envolvem a produção e a disseminação do saber, impondo às sociedades
contemporâneas o imperativo de uma adaptação tecnológica sem par.
3.1 O
Pacto da Educação Superior para o Desenvolvimento Inclusivo
Como primeiro passo nesse
rumo, o MEC se propõe a assegurar um fluxo regular adicional de recursos para
aquelas instituições universitários que aceitem aderir a um Pacto de Educação para o
Desenvolvimento Inclusivo.
As metas e objetivos das
ações vinculadas a tal Pacto
serão especificados em Edital Público, onde será detalhado tanto o número de
vagas a serem abertas nas instituições interessadas, como a distribuição
regional desejada para a alocação dos egressos. Essa indução visa formar
profissionais de nível superior em áreas estratégicas identificadas como
carentes de capacitação imediata de quadros, com prioridade para os seguintes
horizontes profissionais:
• engenheiros atuantes nas
áreas de carência imediata, tais como informática, energia, infra-estrutura
urbana;
• cientistas em campos de
ponta nas áreas de saúde, educação, biologia
• professores de matemática,
português, física, química, biologia, história e geografia, para atuarem no
ensino fundamental e médio;
• enfermeiros e sanitaristas;
• profissionais de produção
alimentar;
• profissionais para o
desenho e a gestão de políticas e instrumentos voltados à superação do quadro
de pobreza.
Os Editais determinarão os
critérios de elegibilidade, tanto para os candidatos a alunos como para as
instituições que desejem se habilitar a prover-lhes a formação. Em princípio
estarão habilitadas a concorrer às chamadas feitas por Edital todas as
instituições governamentais, comunitárias ou particulares que observem os
termos normativos do Sistema
Nacional de Avaliação e Progresso da Educação Superior
instituído pelo MEC.
As vagas abertas pelos
Editais do Pacto
de Educação Superior para o Desenvolvimento Inclusivo
contemplarão, prioritariamente, as Universidades Federais e em seguida, as
públicas estaduais e municipais. O Pacto inclui instituições
comunitárias ou particulares, quando o setor público não for capaz de atender a
toda a demanda. Contará também como critério de elegibilidade aos Editais do
Pacto a localização das instituições que estejam dispostas a oferecer os cursos
demandados, de forma a que sejam atendidas regiões e localidades
estrategicamente determinadas. Fará parte do Pacto um compromisso firmado com
metas da instituição para a ampliação do número de vagas em horário noturno.
O Governo, por intermédio do
MEC, pagará à instituição contratada com base na concorrência pública promovida
segundo os termos dos Editais, um valor mensal por aluno, a título de taxa
escolar, ao longo do período correspondente à sua formação, e um valor
adicional no momento em que concluir o curso. Para todo o alunado, os cursos
oferecidos pelo Pacto
de Educação Superior para o Desenvolvimento Inclusivo
serão gratuitos. Os alunos oriundos de famílias com renda mensal inferior a
meio salário mínimo por pessoa poderão ter preferência para receberem as bolsas
fornecidas pelo Programa de Apoio ao Estudante - PAE, ora em debate no Congresso
Nacional.
O MEC estabelecerá ações
integradas com as secretarias estaduais e municipais de educação, com o
Ministério da Saúde e as secretarias estaduais e municipais de saúde, com o
Ministério do Meio Ambiente, o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o
Ministério da Assistência e Promoção Social, o chamado Sistema S e outras
instituições ativas nas áreas de formação definidas, para identificar lacunas
de pessoal qualificado, bem como acompanhar e avaliar as atividades
implementadas.
A adesão ao Pacto de Educação
Superior para o Desenvolvimento Inclusivo é voluntária. O Pacto é uma
ação de amplitude nacional, a ser implementada no curto prazo, congruente com
uma visão de futuro de longo prazo, que corresponde a um novo modelo
universitário cujas características fundamentais deverão ser definidas ao longo
do primeiro semestre de 2004, em diálogo aberto com a comunidade acadêmica e a
sociedade em geral.
3.2 A Educação a Distância
Como um segundo passo, rumo
ao necessário redesenho emergencial, é imperativo reconhecer que a universidade
pública brasileira, nos limites impostos pela educação presencial, mesmo com
aumento substancial de recursos, não teria condições de aumentar as vagas de
forma maciça no curto e media prazos. Em um país de dimensões continentais a educação a distância
surge como um caminho viável e necessário. Infelizmente, no Brasil, muitos
ainda julgam a educação
a distância um ensino de segunda categoria e prevalece um medo
infundado de que a educação
a distância possa ameaçar o ofício de professor, no desconhecimento de
que em qualquer processo de educação a distância bem planejado exige número
apreciável de professores - no planejamento, elaboração de conteúdo, tutoria e
avaliação. É urgente romper com essa cultura conservadora, que serve de suporte
para um desinteresse político em promover investimentos públicos no apoio à
disseminação do ensino a distância.
Para dar esse salto, no
âmbito das universidades, está em estudos a criação do Instituto Darcy Ribeiro
de Educação a Distância. Já a partir de 2004, o Instituto Darcy Ribeiro
ofereceria todo o apoio à criação e desenvolvimento de redes de ensino a
distância, das quais poderá participar qualquer universidade, centro de ensino
ou faculdade isolada. Até 2007, a meta é ter até 500 mil alunos cursando o
ensino superior por meio da educação a distância. Para tanto, além da
implantação do Instituto Darcy Ribeiro de Educação a Distância, serão
realizadas as seguintes ações, já previstas no PPA: capacitação de pessoal
docente e equipes multimídias; implantação de redes com alto grau de
comunicação e de interatividade;
produção de materiais educacionais que garantam larga utilização;
fortalecimento do apoio logístico a alunos e docentes, tanto na sede, quanto em
pólos descentralizados; além do desenvolvimento e implantação de sistemas
adequados de gestão, operacionalização, acompanhamento e avaliação.
3.3
Considerações complementares
O Grupo de Trabalho não
firmou posição sobre algumas idéias de financiamento do ensino superior, atualmente
em discussão. Porém, considerou que seria conveniente apresentá-las para fins
do debate que deverá ser realizado, na forma de anexo ao presente documento.
No entanto, foram feitas duas
considerações preliminares:
a) as universidades
brasileiras receberam, em 2003, um total de R$ 8 bilhões. Desse total, R$ 2,8
bilhões não foram aplicados diretamente na educação, e sim utilizados para
cobrir os gastos da previdência de professores e servidores. Paga-se com o
dinheiro da educação de hoje a retribuição aos servidores e professores pelo
seu trabalho com a educação no passado.A universidade brasileira deve ao
professor a construção do país. Sua contribuição para com o desenvolvimento da
nação deve ser permanentemente reconhecida. Mas essa é uma situação que precisa
de solução.
b) Nos últimos anos, tem-se
observado a nítida tendência a aumentar a participação de recursos não
orçamentários na composição do financiamento das atividades das universidades
federais, tanto por meio de convênios com empresas estatais, governos estaduais
e municipais, como de pagamentos por serviços prestados em cursos especiais,
trabalhos técnicos de consultoria e prestação de serviços diversos. Tais
valores poderiam ser aumentados, se as universidades federais contassem com a autonomia
financeira por elas pleiteada. Com esses dois instrumentos – autonomia e Fundação de Apoio – as
universidades federais certamente disporiam de condições não só para aumentar a
captação de recursos, mas também para gerenciar com mais eficiência e previsibilidade
os recursos que conseguir captar.
4.
Etapas da Elaboração da Proposta de Reforma Universitária Brasileira
As ações emergenciais
apontadas não bastam para assegurar a efetivação da necessária reforma
universitária brasileira, O Brasil precisa de uma universidade que não apenas
vença sua crise financeira, com a ajuda de medidas emergenciais, e faça
pequenos ajustes no seu desenho. Ela precisa de uma revolução. Para tanto, será
preciso um esforço radical de entendimento da problemática universitária no
mundo do século XXI, assim como reformas profundas na estrutura da universidade
brasileira.
É hora do Brasil democrático,
industrializado e com um sistema social de apartação, marcado por profundas
desigualdades, enfrentar o desafio de reinventar sua universidade, em meio às
grandes transformações que marcam o início do século XXI.
Essas mudanças permitirão à
universidade:
• fazer avançar sua produção
acadêmica no ritmo imposto atualmente pela velocidade do avanço do conhecimento
em todas as áreas;
• adaptar-se a realidade de
um tempo onde o conhecimento se espalha no mundo, por Internet, televisão e
outras modernas formas de mídia, sem respeitar o tradicional locus histórico do
aprendizado em sala de aula;
• participar da solução dos
novos problemas, especialmente os éticos, ecológicos, sociais, científicos e
tecnológicos, da civilização contemporânea;
• zelar pela credibilidade e
legitimidade dos diplomas universitários; e
• conviver com o saber
internacional no mundo globalizado, ao mesmo tempo em que não se desliga da
realidade ao redor.
E no caso específico
brasileiro, implica também a necessidade de viabilizar soluções para:
• ampliar a oferta de cursos
e vagas nas universidades públicas, federais, estaduais e municipais, sem
sacrificar a qualidade, em um tempo de escassez de recursos financeiros;
• possibilitar, para milhões
de jovens sem possibilidade de vaga nas universidades públicas, e sem recursos
pessoais para pagar seus cursos nas instituições particulares, o sonho de
concluir um curso superior;
• promover a responsabilidade
social da universidade, em compromisso com o desenvolvimento inclusivo da
economia e da sociedade brasileiras;
A resposta democrática a
esses desafios exige um processo de diálogo, debate e crítica. E também a responsabilidade
de, em tempo hábil, formular uma proposta que possa ser enviada ao Congresso
Nacional ainda no primeiro semestre de 2004, com vistas a efetivar a primeira
grande reorientação de rumo da universidade brasileira, desde aquela feita nos
idos de 1968, com base no acordo MEC-USAID dos tempos da ditadura, antes da
revolução científica, tecnologia, política e de costumes do final do século XX.
Para tanto, a primeira etapa
é o enfrentamento imediato dos aspectos emergenciais, tal como apresentado no item
1 do presente documento. A segunda etapa é a efetivação dos primeiros passos
apontados em 3. Esses esforços são condição de possibilidade para atrair e
mobilizar a comunidade acadêmica para a grande transformação que representa a
reforma universitária necessária, em um redesenho abrangente de todas as formas
institucionais comprometidas com o ensino superior.
Ao longo de 2003, foram dados
alguns passes em direção à reforma universitária brasileira:
a) em torno da idéia da Universidade XXI,
lançada em janeiro, o MEC promoveu debates, como o seminário “Por que e Como
Reformar a Universidade”, em agosto publicou textos, até realizar, em novembro,
o grande Seminário Internacional para debater o futuro da universidade no
Brasil e no mundo. O resultado desse debate está divulgado e tem provocado
grandes confrontos de idéias. Será inclusive um dos pontos de debate no 4°
Seminário Internacional sobre Universidade a ser realizado em Cuba, em
Fevereiro de 2004;
b) ao longo do ano foram tomadas medidas
decisivas para evitar o colapso das universidades federais; para regulamentar
as relações entre centros e universidades; para definir um Sistema Nacional de
Avaliação e Progresso do Ensino Superior; para recompor o quadro de professores
e servidores, com a autorização da abertura de 14.400 vagas; para desfazer o
entulho burocrático herdado há anos; para reduzir a explosão de novos cursos;
para financiar hospitais universitários;
c) em outubro, o Presidente Lula
determinou o criação do Grupo e Trabalho Interministerial para propor caminhos
que permitam enfrentar os aspectos emergenciais do ensino superior brasileiro;
d) o atual documento Bases
para o Enfrentamento da Crise Emergencial das Universidades Federais e Roteiro
para a Reforma Universitária Brasileira é parte do esforço realizado em 2003.
Para concluir a grande
reforma universitária do começo do século XXI, ao longo de 2004 serão seguidos
os seguintes desdobramentos:
a) aprovação da versão do presente
documento pela Presidência da
b) lançamento, em março, do Movimento
Nacional Universidade XXI, para conduzir a reforma universitária;
c) no mesmo momento, criação de um grupo
de trabalho que, em diálogo com a comunidade acadêmica e a sociedade, e
recebendo contribuições e críticas de entidades universitárias (tais como
Andifes, Andes, Fasubra,
d) divulgação em abril, pelo MEC e por
esse grupo de trabalho, do acervo de propostas relacionadas com a reforma
universitária, e de uma proposta do novo desenho do sistema universitário
brasileiro para debate. Nesse documento, deverão estar sugeridas questões
fundamentais para o futuro da universidade, entre as quais:
i. a
definição e a regulamentação de carreiras e recursos de formação, incluindo-se
aqui aspectos como a duração dos cursos, a formação continuada, o sistema de
créditos, o reconhecimento e mobilidade
dos diplomas, o reconhecimento de notório saber adquirido em processos
extra-universitários de aprendizagem, a implementação de novas carreiras e
diplomas, as modalidades de pós-graduação, a introdução de técnicas de ensino a
distância, revisão do marco regulatório do ensino superior etc.;
ii.
as formas de ingresso nas atividades acadêmicas, incluindo novas turmas de
vestibular e aspectos como as cotas para minorias e portadores de necessidades
especiais, a avaliação progressiva do desempenho pré-universitário, etc.;
iii.
os novos métodos de ensino e convivência universitária, incluindo a
universidade aberta e todas as formas de ensino a distância, os reconhecimentos
internacionais de saber, os riscos da mercantilização do ensino superior, a
formação permanente e a validade dos diplomas;
iv. a
autonomia e os modelos de institucionalização do ensino superior, incluindo-se
aqui a definição do Sistema Nacional de Ensino Superior, das categorias de
cursos e instituições, das alternativas de propriedade das instituições, dos
conceitos de estatais, públicas, particulares, comunitárias, inclusive da
gratuidade para todos ou para determinados cursos, das formas de financiamento,
dos modelos de gestão, da avaliação e credenciamento, da relação com o setor
produtivo, da responsabilidade social, da internacionalização, da
regionalização e interiorização das atividades acadêmicas etc.
e) ao longo de maio,
determinação de um dia por semana dedicados ao debate na comunidade
universitária da proposta inicial e preliminar, e debate da proposta em todos
os setores da sociedade brasileira;
f) em junho, formulação, com
base na consideração das contribuições recebidas, do documento da reforma
universitária, a ser apresentado no primeiro semestre de 2004 ao Congresso
Nacional, visando sua transformação em Lei;
g) no segundo semestre,
debate no Congresso Nacional, visando aprovar, ainda em 2004, os novos
instrumentos de promoção e construção da Universidade XXI no Brasil, que seria
implantado a partir de 2005.
De acordo com o presente
documento:
Cristovam Buarque Carlos Antunes
Ministério da Educação Ministério da Educação
Kátia dos Santos Pereira Luiz Tadeu Rigo
Casa Civil
Marcelo Feitosa de Castro Gustavo Sampaio
Ministério do Planejamento Ministério da Fazenda
Jairo Celso Correia Marçal Hélio Barros
Ministério da Fazenda Ministério da Ciência e
Tecnologia
Luiz Soares Dulci Edison
Collares
Presidência da
Luiz Eduardo Alves
Wanderley Guilherme
dos Santos
Ministério do Planejamento Ministério da Ciência e
Tecnologia
ANEXO - Alternativas de financiamento
Durante os debates do Grupo
de Trabalho, surgiram alternativas de fontes de financiamento que não foram
aprovadas por todos os membros do Grupo. Considerou-se, no entanto, que essas
idéias mereceriam ser citadas, fora do documento principal para ampliar o
debate:
• Contribuição voluntária —
valeria a pena estudar as possibilidades de se captar recursos adicionais para
as universidades federais por meio de contribuição de ex-alunos, nos moldes do
que é feito nos EUA. As universidades brasileiras poderiam captar recursos
voluntários de seus ex- alunos, com campanhas de voluntariado, apoiadas em
incentivos fiscais.
• Contribuição não-voluntária
— uma primeira forma possível seria a adoção do sistema inglês, defendido no
Brasil pelo ex-deputado Padre Roque, apresentado em projeto de lei de sua
autoria, em tramitação no Congresso Nacional. Trata-se de uma alíquota
adicional no Imposto de Renda para ex-alunos de universidades federais que
declarem renda acima de determinado valor. Nesse caso, os recursos captados
iriam em parte para a própria instituição onde estudou o contribuinte, e em
parte para um fundo que serviria para financiar o conjunto das instituições.
• Distribuição do CPMF — a
idéia desse imposto é financiar gastos com saúde pública, o que pressupõe a
formação de pessoal especializado nas universidades brasileiras. Mas nem essas
universidades nem suas faculdades de saúde recebem parte dos recursos captados
pelo CPMF. Uma simples reinterpretação das normas que criaram o imposto
permitiria que uma parte desses recursos fosse canalizada para as áreas de
saúde das nossas instituições públicas de ensino superior — federais, estaduais
e municipais — por intermédio de convênios ou pelo rateio direto do valor total
do CPMF.
• Folha de inativos — a
retirada da folha de inativos do orçamento das universidades federais liberaria
os R$ 2,8 bilhões mencionados acima, montante capaz de propiciar às
universidades federais o enfrentamento não apenas de sua crise emergencial, mas
também uma considerável margem de investimentos e de crescimento, superando os
cálculos apresentados na intenção de dobrar o número de alunos. Nesse sentido,
poder-se-ia propor que os custos da folha de inativos fossem assumidos pela
Previdência Social. Outra opção seria simplesmente retirar essa despesa do
cálculo dos 18% previstos constitucionalmente.
Empréstimo Saber — o Brasil
implantou sua infra-estrutura apoiando-se no instrumento financeiro da oferta
de bônus da dívida pública. Hoje, à parte dessa infra-estrutura que corresponde
à produção do saber, nossas universidades federais estão sob risco de total degradação.
É razoável propor que esse instrumento possa agora servir de apoio para
assegurar a superação da crise emergencial das universidades federais. Não é
difícil perceber que o conhecimento científico e tecnológico e a formação de
recursos humanos qualificados, produto da universidade, têm significado
estratégico para o desenvolvimento econômico, como atesta o aumento da
produtividade e competitividade por ele viabilizado, criando as condições para
saldar o endividamento contraído. Poderia ser considerada, caso não haja outras
fontes, a emissão de bônus da dívida pública que possa assegurar a superação da
crise emergencial das universidades federais Não é difícil perceber que o
produto das universidades, pelo aumento da produtividade que ela gera na economia,
cria condições para pagar a dívida.
• Lei de Incentivo Fiscal
para o ensino superior — o Brasil dispõe de diferentes leis nacionais,
estaduais e municipais de incentivo fiscal, a exemplo, na área de cultura, da
Lei 8.313/91 (Lei Rouanet). De modo análogo, poder-se-ia conceber e implementar
um dispositivo específico destinado à educação superior, tendo por foco a
destinação de recursos para apoiar cursos universitários ofertados pelas
universidades federais. Grandes seriam as vantagens para as universidades
públicas caso fosse dado ao contribuinte o direito de investir na educação
superior em troca de reduções tributárias. As condições de elegibilidade dos
possíveis destinatários do apoio concedido seriam definidas pelo MEC, com base
no recém-instituído instrumento de avaliação e progresso dos cursos ofertados
pelas instituições de ensino superior brasileiras, o chamado IDES (Índice de
Desenvolvimento do Ensino Superior).
• Fundos empresariais para o
ensino superior — todo o desenvolvimento econômico brasileiro, em todas as
áreas, só foi possível graças à universidade. A dinâmica de nossa agricultura
não teria ocorrido sem pesquisas e pessoal de nível superior. No futuro, isso
será ainda mais decisivo. A quebra da universidade levará à quebra do desenvolvimento
da produção. Seria do interesse de todos a criação de Fundos Empresariais para
o Ensino Superior, nos moldes dos Fundos Setoriais que apóiam as pesquisas com
recursos dos Fundos de Pensão. Eles poderiam ser usados para financiar o
funcionamento das universidades federais, dando-lhes possibilidades de
desenvolvimento de ciência e tecnologia.
• Abrir às universidades a
possibilidade de utilizar recursos oriundos de um possível acordo, atualmente
em discussão, para viabilizar a troca da dívida por investimentos na educação,
poderia ser urna opção. Essa idéia foi aprovada em reuniões bilaterais e
multilaterais de Chefes de Estado Latino-americanos e Ibero-americanos, e prevê
o uso desses recursos apenas para a educação básica. Nada impediria que parte
dos recursos se destinassem à educação superior.